Recém-publicado no Brasil, “O Menino da Triste Figura” é o segundo volume da “trilogia madura” de Kenzaburo Oe, marcando um momento importante de sua fase tardia. Neste romance, Oe reencanta o “watakushi shosetsu” –o “romance do eu” japonês– entrelaçando-o com lendas locais e referências a autores que moldaram sua visão literária e de mundo.
Laureado com o Nobel em 1994 e celebrado internacionalmente, Oe enfrentou resistências no próprio país. Setores conservadores o criticavam por seu pacifismo e postura antinuclear. Seu estilo denso e os temas incômodos —trauma, deficiência, identidade— dividiam o público entre fascínio e rejeição.
Sua literatura costura trajetórias individuais com as transformações de um país que, após a derrota, precisa se reinventar, transitando entre o revisionismo, o ressentimento nacionalista e a modernização vertiginosa.
A trilogia de Oe, que tem como protagonista o alter ego Kogito Choko, retoma temas centrais como família, memória, lendas, sensibilidade criativa e os dilemas da criação literária.
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Nesta tradução de Jefferson José Teixeira, somos levados por Kogito, escritor renomado, de volta à vila natal na ilha de Shikoku após a morte da mãe. Na casa de infância, com o filho Akari —que vive com uma deficiência severa, mas tem sensibilidade musical notável— tenta reconstruir o passado para escrever. Com ajuda da crítica Rose, investiga a lenda de um menino que teria salvado a vila no passado.
O romance traz descrições vívidas da natureza e da mãe de Kogito, cuja presença persiste no pensamento. Ao percorrer vales e florestas, reencontra histórias da infância e encara uma pergunta ou uma dúvida, como seu nome já sugere: será que ele acredita realmente nas mitologias que moldam sua escrita? A dúvida desencadeia uma crise criativa.
O watakushi shosetsu —tipo de narrativa surgida no século 20, que propõe transparência na escrita da experiência pessoal— é diferente da autoficção ocidental, mais irônica e afeita ao jogo de máscaras consciente.
Oe reinventa essa tradição: transforma a dúvida em veio produtivo, afastando-se da autoexpressão serena e questionando a própria autenticidade do gesto narrativo.
O título do livro, é claro, remete ao apelido dado por Sancho Pança a Dom Quixote, e o próprio personagem aparece dentro do romance sendo lido por Rose, que o usa também para se proteger do sol. Esta vê Kogito como um quixote transitando entre fracassos tragicômicos.
Seus moinhos são as contradições do Japão contemporâneo; sua “loucura”, talvez a persistência e a delicadeza em ouvir vozes periféricas, inclusive de seu filho.
O livro é saturado de referências, incluindo cinematográficas, e reflexões sobre as preferências literárias e intelectuais que permeiam a vida de Kogito, além da lenda do menino que o ocupa.
Em 1992, Oe afirmou: “Mesmo tendo deixado meu vilarejo para viver em Tóquio, continuei a sonhar com lugares periféricos. Criei meu próprio mito: o vilarejo em Shikoku, Okinawa, a Cidade do México”.
A herança familiar —o pai morto durante a guerra, a avó contadora de histórias— atravessa sua ficção, em que a floresta se funde à memória e os mitos locais revelam um país ferido e seu complexo processo de modernização. Em vez de propor a restauração de valores ou simplesmente assimilar o Ocidente, Oe faz da hesitação uma ferramenta crítica.
“O Menino da Triste Figura” não é só obra de um mestre japonês da narrativa, mas um livro que expressa o atrito produtivo entre legado sociocultural e fabulação.
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