Por qualquer ângulo que se analise, o anúncio do fim do “Late Show”, apresentado por Stephen Colbert desde 2015, é uma péssima notícia. A decisão da rede CBS foi tornada pública na quinta-feira (17) à noite. O programa deixará de ser apresentado a partir de maio de 2026, ao fim do contrato de Colbert, que foi responsável por suceder David Letterman, um dos principais propulsores do formato, inclusive no Brasil.
A primeira e pior hipótese é que o cancelamento do talk show tenha sido motivado por razões políticas. O presidente Donald Trump, desde o primeiro mandato, sempre foi alvo de críticas ácidas e debochadas de Colbert.
Por trás da decisão, estaria o interesse da Paramount, empresa controladora da CBS.
No início deste mês, a Paramount concordou em pagar US$ 16 milhões para encerrar uma ação judicial movida por Trump, por causa de uma entrevista com Kamala Harris transmitida em outubro do ano passado, no programa jornalístico 60 Minutes. Segundo Trump, o canal editou a entrevista de forma favorável à então candidata presidencial.
Para muita gente que acompanhou o assunto e conhece os meandros da Justiça americana, a Paramount deveria ter enfrentado a ação judicial, ao invés de optar pelo acordo. A decisão foi muito criticada, inclusive por Colbert. Nesta segunda-feira (14), em seu programa, o apresentador classificou o acordo como “um grande suborno”.
Desde 2024, pelo menos, a Paramount vinha buscando um parceiro para fazer uma fusão, tentando ganhar musculatura na competição com gigantes como Netflix, Disney e Amazon. Em julho do ano passado, foi informado que o grupo Skydance Media concordou em pagar US$ 8 bilhões para assumir o controle da Paramount. O negócio não foi finalizado até hoje, e depende de aprovação, justamente, do governo Trump.
Integrantes da oposição injetaram combustível na tese de que o fim do programa teve razões políticas. A senadora Elizabeth Warren disse: “Os Estados Unidos merecem saber se o programa dele foi cancelado por motivos políticos.” “Se a Paramount e a CBS encerraram o ‘The Late Show’ por motivos políticos, o público merece saber”, disse o senador Adam B. Schiff.
No comunicado que anuncia o cancelamento do “Late Show”, a CBS se antecipou à especulação e negou que a razão seria política. Foi “puramente uma decisão financeira em um cenário desafiador no horário nobre”, disse a empresa.
Os talk shows de fim de noite são uma espécie de instituição das grandes redes —NBC, ABC e CBS— da televisão americana. Na sua mistura de entrevistas com astros de Hollywood e celebridades, números de humor e banda de música, é um formato que vigora, sem alterações significativas, desde a década de 1950.
O pioneiro “Tonight Show”, na NBC, estreou em 1954, sob o comando de Steve Allen. Desde 2014, esse programa é apresentado por Jimmy Fallon. Para quem se interessa pelo tema, recomendo “A História do Late Night”, na HBO Max, que investiga como nasceu este gênero na TV americana.
Mas é um formato que enfrenta dificuldades já há algum tempo, em consequência da migração de público tantos das grandes redes quanto da TV por assinatura para as plataformas de streaming.
O número de programas noturnos vem diminuindo nos últimos anos. Taylor Tomlinson, que apresentava o “After Midnight”, um talk show à 0h30, depois do programa de Colbert, anunciou a sua saída em março, e a CBS aproveitou para cancelar o programa. Em 2022, outros dois nomes icônicos do mundo do talk show, Trevor Noah e James Corden, também deixaram seus programas por vontade própria.
Como lembra o The New York Times, outros programas noturnos, incluindo os apresentados por Samantha Bee e Conan O’Brien, que saíram do ar nos últimos anos, também nunca foram substituídos. E o Emmy, que normalmente tinha até seis indicados ao prêmio de melhor talk show, este ano anunciou apenas três candidatos ao troféu.
Outro sinal explícito da decadência do formato é a queda da receita publicitária. Ainda segundo o jornal americano, os programas noturnos das grandes redes arrecadaram, em 2018, US$ 439 milhões em receita publicitária, contra US$ 220 milhões, em 2024, uma queda de 50% em apenas sete anos.
Quem assistiu à quarta temporada de “Hacks”, na HBO Max, teve a chance de observar alguns dos sinais desta crise. A ficção descreve o esforço da comediante Deborah Vance (Jean Smart) para se tornar apresentadora de um talk show no horário nobre de uma grande rede de TV.
O público rejeita o humor politicamente correto da roteirista, quer ver a perna da apresentadora e se diverte com piadas que fazem sucesso no TikTok. Deborah grava inúmeros vídeos ridículos para promover o talk show nas redes sociais. A direção do canal impõe a presença de determinados convidados e cede à pressão para cortar trechos considerados polêmicos. Os fragmentos de entrevistas, exibidos nas redes sociais, importam mais do que a íntegra das conversas.
Apesar da perda de audiência e de faturamento, os talk shows de fim de noite da TV americana seguem relevantes —e devem muito a Trump por isso. Diferentemente dos jornalistas que comandam os noticiários, os apresentadores de talk show têm liberdade enorme para fazer piadas e tripudiar do presidente americano e da realidade do país. Colbert vai fazer falta.


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