“A Fera na Selva” não existe mais como livro impresso, seja na tradução de Fernando Sabino (Rocco) ou na de José Geraldo Couto (Cosac-Sesi), ambas esgotadas. Graças às musas da literatura, as versões online da novela máxima de Henry James seguem à venda na internet.
Ele estava com 60 anos ao lançá-la, em 1903. Tinham ficado para trás “Retrato de uma Senhora” e “A Outra Volta do Parafuso”, seus livros mais queridos. Meses depois sairia “Os Embaixadores”, o canto do cisne.
Entrevado por reumatismos, não escrevia. Ditava de manhã à secretária e revisava à tarde o que ela datilografara: ficção, crítica, relatos de viagem. Abdicara da América natal e sentara praça na Lamb House, de onde passeava no poente até as falésias da Mancha.
Levou dois anos para dar uma reaparafusada geral na obra —os 24 tomos e 16 prefácios da chamada “New York Edition”. Como foram muitos a abominar a reescrita, segue impávida a pendenga entre os jamesianos originalistas e os revisionistas, alas de sabichões com pós-doc em Bizâncio.
Uma altercação mais proveitosa envolve “A Fera na Selva”. Embora seja pacífico que a novela é um cume das letras do Ocidente, não se sabe bem por quê. Aos 122 anos, está longe de ser um clássico fofo e insosso; é um tigre à espreita dos perdidos na selva do sexo e da solidão. A ela.
Numa tarde de outubro, o funcionário John Marcher, de 35 anos, visita com amigos a mansão de Weatherend, no campo inglês. São ciceroneados por May Bartram, 30, parente pobre dos donos da propriedade.
Trocam olhares longos e lentos, se deixam ficar para trás. O narrador especula se não se conhecem. John matuta, lembra e proclama que se viram há sete anos, em Roma. Divertida, May o corrige: fora há dez, em Nápoles.
Espicham a conversa, mas entre eles só havia trivialidades juvenis, sementes de sentimentos que, enterradas fundo, não podiam germinar tanto tempo depois. A demora em se juntarem aos outros era uma confissão de que não queriam que o reencontro fosse um fracasso.
May salva a situação. Fala que na Itália, num dia de calor tremendo, num barco, John contara algo que nunca lhe saíra da cabeça e, volta e meia, a levava a pensar nele. Pergunta-lhe: esqueceu? Ele não lembrava. Pela gravidade de seu tom, notou que não fora uma tolice, má cantada ou impertinência.
John desiste de sondar a memória. Insiste em vão para que May traga o passado à tona. Até que uma luz se lhe acende na mente e o sangue sobe devagar ao rosto: “Quer dizer que lhe contei…?”. Sim, revelara à moça seu segredo: achar que algo prodigioso, terrível, lhe aconteceria. Sua sina era viver à espera da fera que, um dia, saltaria na selva para destroçá-lo.
Agora se veem amiúde em Londres. Pactuam: May aguardará também o bote da besta, o embate de John com o destino. Vão à ópera, à National Gallery, jantam juntos, afeiçoam-se. Seria natural se casarem, mas ele acha que “um homem de valor” não leva a mulher a “uma caçada de tigres”.
Passam-se os anos, décadas, a vida. Têm certa noite uma conversa torta, e ele a acusa de ocultar o que lhe sucederá. Ela silencia.
Noutra vez, a mulher lhe diz que seu choque com a besta já ocorrera. Como assim? John não ter percebido isso, ela fala, era “o assombro dos assombros”.
May morre e ele viaja um ano pelo Oriente. No dia mesmo da volta, vai à tumba da amiga, e a ela retorna repetidas vezes. Sua dor mitigara, mas latejava, sangrava ao mais leve toque.
Numa tarde cinzenta de outono, cruza no cemitério com um homem decomposto pela dor, talvez viúvo. “O estranho passou, mas o puro clarão da sua dor permaneceu”, escreve Henry James.
John Marcher queda-se à beira da cova, contemplando o vazio absoluto de sua vida. Constata de chofre que May Bartram o amara perdidamente, e ele, indiferente, se blindara no egoísmo.
Percebe que a fera “se erguia, enorme e horrenda, para o salto que o aniquilaria.” Seus olhos se turvam e a novela acaba.
A prosa de Henry James, um Tâmisa de frases suntuosas, deslumbra. Mas metáforas e metonímias levam “A Fera na Selva” para além do sentido imediato, pedem pensamento: análises estéticas, históricas e psicológicas.
Tais análises foram feitas pela poeta Sylvia Plath, a prosadora Marguerite Duras, o romancista Colm Tóibín e a atriz Delphine Seyrig, que tiraram a fera do armário e a deitaram no divã.
O que pensaram será exposto aqui na semana que vem.
Haverá perversão e pedofilia, crítica gay e queer, poesia, cinema, ensaio, teatro.
Não perca.


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