A última imagem de Jean-Claude Bernardet, morto neste sábado (12), é a que fica. O homem que se recusa a voltar à quimioterapia depois de já ter extirpado a próstata para extirpar o câncer. Mas o câncer, disseram os médicos, voltou. Voltou na próstata. Um câncer em um órgão que já não está lá.
Numa memorável entrevista a Mario Sergio Conti, ele relatou toda a história desse câncer incompreensível. Um câncer fantasma. Bernardet não só não voltou ao tratamento como ainda acusou a indústria médica de ser pródiga em remédios inúteis (e caríssimos). Entregava-se aos cuidados terminais.
Isso faz anos. A última imagem que ficou não foi dessa entrevista. Em fotos, em filmes, vemos o homem com uma lupa nas mãos. A degeneração ocular agora atacava sua vista. Ele usava a lupa como artifício para tornar letras e imagens visíveis. Escrevia, conversava com os amigos. Tentava sempre compreender.
Era um belga a caráter: se não compreendia alguma coisa, não ficava satisfeito, nem com os próprios argumentos. Era tão belga quanto seu sotaque carregado.
Mas sua paixão era bem brasileira. Começou como um crítico de textos admiráveis, que a certa altura renegou, por achar que eram burgueses. Aderiu à renovação do cinema brasileiro, mas nem por isso endossou o cinema novo. Sua concepção do cinema brasileiro parecia mais próxima da de Luis Sergio Person, cujo “São Paulo S/A” defendeu contra “os cariocas”.
Da defesa de Person nasceu a colaboração para escrever “O Caso dos Irmãos Naves”. Expelido da UnB pelo governo militar, mudou de função: passou de professor a roteirista. Voltaria a ser professor na Universidade de São Paulo, a USP, e então começaria uma fértil carreira como ator de filmes. Um ator com pendor certo para o cômico.
Depois viria a doença. O HIV. Dele salvou-o “o coquetel”. O famoso coquetel que tornou a infecção menos mortal. Não parou de fumar por isso. Passou por inúmeros males decorrentes do HIV, mas nem por isso tornou-se menos ativo, menos polêmico.
Ao contrário. Ela o levou a se assumir como cineasta. Ela também foi pretexto para tornar-se autor de ficção. Em vez de abatê-lo, a doença parecia, de certa forma, fortalecê-lo. Em 1995, numa viagem ao Japão, eu estava na poltrona ao lado durante o voo. Ela fumava muito. Ou dormia. Ninguém dorme direito em avião.
Jean-Claude dormia como uma criança. Eu precisava passar sobre suas longas pernas para ir ao banheiro ou conversar com alguém. A princípio tinha medo de acordá-lo. Mas nada o acordava.
Em Tóquio, me recriminou por não ir a uma excursão à célebre cinemateca local. Eu estava vencido pelo fuso horário. Ele estava novo, disposto. Foi nesse ano que publicou “Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro”, que punha a nossa concepção de história do cinema brasileiro (isto é, a de seu mestre absoluto, Paulo Emilio Sales Gomes) de ponta-cabeça.
Começava por não reconhecer 1898 como data do primeiro filme feito no Brasil. Onde estava o negativo? Quando foi exibido, se nada consta dos jornais? Por fim, criticava a ideia de um cinema fundado exclusivamente sobre a produção, sem se ocupar dos aspectos comerciais da questão.
Tanto quanto o cinema, compreender o mundo em que vivia foi sua paixão. Para isso, usou todos os recursos ao seu dispor. O cinema antes de todos, claro. A lupa, por fim: imagem de uma busca interminável. Nunca de todo satisfeito consigo mesmo, sempre disposto a criticar e rever a si mesmo e aos outros, a errar e acertar, procurando sempre.
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