Crítica: Morte de Thiong’o deixa enfrentar sua obra sem o fascínio de sua biografia

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Crítica: Morte de Thiong’o deixa enfrentar sua obra sem o fascínio de sua biografia


O roteiro era conhecido no meio literário: sempre que outubro chegava, as casas de apostas europeias ostentavam o nome do queniano Ngugi wa Thiong’o —morto em 28 de maio nos Estados Unidos, aos 87 anos— como possível prêmio Nobel de Literatura. É claro que o mês terminava invariavelmente sem a condecoração do autor.

Em casos como esses, a ausência da condecoração laudatória parece fortalecer uma mitologia do mérito infinito: a cada ano que passava, a não premiação tornava ainda mais legítimo o mérito do não premiado.

Por esse motivo, a morte de Thiong’o encerra um ciclo de fetichização de uma das mais difíceis literaturas contemporâneas do continente africano e pode ser o começo de um enfrentamento de sua obra sem o justo fascínio que sua biografia exercia sobre nós.

Muitos atribuíam sua decisão de publicar seus livros em seu idioma materno —e não em inglês, como o autor fazia até 1986— o principal motivo para que a Academia Sueca torcesse o nariz para sua obra.

Agora que seu “Descolonizando a Mente: a Política Linguística na Literatura Africana” chega às livrarias brasileiras pela editora Dublinense, com boa tradução de Hilton Lima, essa tarefa de equalizar esse desequilíbrio analítico se torna menos árdua.

Grosso modo, “Descolonizando a Mente” é um conjunto de textos que visam explicar as razões pelas quais o autor decidiu expressar sua literatura apenas em seu idioma materno. Essa atitude fez com que grande parte da crítica internacional preferisse gastar seu tempo falando mais do comportamento social do autor do que das posições políticas veiculadas nos textos que escrevia. Mas literatura nunca foi tema.

Literatura é “como” e não “o quê”. É claro que se pode apostar na ideia de que, em um mundo em franca dissolução, o melhor a fazer seria optar pelo sacrifício voluntarioso dos valores estéticos em nome da aplicabilidade instrumental.

Lê-se para ir até onde o Estado não chegou. Lê-se para ilustrar com imagens aquilo que os mapas das aulas de geografia insinuaram. E lê-se para preencher as lacunas que as aulas de história deixaram.

A culpa de um mundo insuficiente seria a leitura insuficiente. E não a fome. E não a inflação. E não o desemprego. Posso estar enganado —já me aconteceu uma vez—, mas não me parece razoável apostar que a imperfeição do mundo é resultado de nossas limitações linguísticas.

Thiong’o parece obstinado em extrair da historiografia literária africana a edificação de um projeto que coloque a literatura no centro das coisas e não o centro das coisas dentro da literatura.

Segundo ele, a imaginação livra a literatura de pertencer a um universo de fabulação negativa, onde todas as outras bugigangas que o capital inventa são liberadas para não terem utilidade alguma, exceto —e eis o paradoxo— os artefatos artísticos.

O autor de “Sonhos em Tempos de Guerra” acerta ao politizar o que precisa ser politizado, deixando fértil o campo para o cultivo de uma literatura autônoma. A certa altura, chega a afirmar que “parece ser a sina da África ter seu destino sempre decidido em mesas de conferências nas metrópoles do mundo ocidental”.

Contudo, Thiong’o dosa de maneira hábil os momentos de militância aberta e os de pensamento crítico obstinado. O que não é literatura só aparece no livro como forma de exaltar os poderes da criação literária.

Se para alguns a literatura é pretexto para entender a realidade, para Thiong’o a realidade é um pretexto para entender a literatura.

Ambicioso, ele mostra que a maior riqueza dos territórios explorados são os recursos humanos. E, se significam tanto, suas linguagens e seus modos de ver o mundo devem significar um bocado também. Essa é uma aposta que, do ponto de vista moral, vale muito; e, do ponto de vista estético, vale ainda mais.



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