Michael Madsen é automaticamente associado aos filmes que fez com Quentin Tarantino. A maior parte dos obituários do artista, morto nesta quinta-feira, irá nessa linha, do ator talhado para viver os impulsos de violência de um dos diretores mais celebrados dos últimos 30 anos.
O cortador de orelha de “Cães de Aluguel”, de 1992, um dos oito odiados do filme de 2015, o matador que enterra Uma Thurman viva em “Kill Bill Vol. 2”, de 2004, mas que em “Kill Bill Vol. 1”, do ano anterior, tem uma participação discreta, uma voz colocada na sinfonia proposta pelo diretor. São papéis marcantes, mesmo quando secundários.
E como secundário chamou a atenção em filmes como “Donnie Brasco”, uma espécie de variação do cinema de gângster protagonizada por Al Pacino e Johnny Depp e dirigida por Mike Newell.
Também em “Thelma e Louise”, um dos melhores filmes de Ridley Scott, quando interpretou o namorado músico da personagem de Susan Sarandon e é abandonado quando o relato se torna um road movie.
Atua também em “The Doors”, de Oliver Stone, a afetada biografia musical que deveria se chamar Jim Morrison, pois é como se a banda fosse simplesmente acompanhante do Rei Lagarto. Muitos entendem que era, mas é bem discutível a ideia.
Poucos lembram dele em “Jogos de Guerra”, de 1983, de John Badham, e “Sin City”, de 2005, no qual Frank Miller, Roberto Rodriguez e Tarantino dividem a direção. Mas quem viu “A Experiência”, de 1995, do competente Roger Donaldson, não o esquece como um dos cientistas que tentam capturar a sanguinária alienígena interpretada por Natasha Henstridge. Três anos depois, o filme teve uma continuação menos interessante, “A Experiência 2: A Mutação”, de Peter Medak. Madsen estava lá novamente.
Mas talvez o seu primeiro papel de destaque no cinema, ainda que secundário, tenha sido em “Iguana: A Fera do Mar”, de Monte Hellman, lançado em 1988.
Martin Scorsese? Apesar do rosto e do jeito de mafioso novaiorquino, Madsen jamais encontrou o diretor de “Taxi Driver”. Mas quem não o imaginou, ou até confundiu, com o paramédico mais alucinado de “Vivendo no Limite”, papel que ficou com Tom Sizemore?
Madsen, contudo, era também poeta e fotógrafo, homem das artes, mais do que da violência. Um ano após cortar a orelha do policial de “Cães de Aluguel”, teve um papel de razoável destaque no familiar “Free Willy”, de 1993, de Simon Wincer, e na malfadada continuação “Free Willy 2: A Aventura Continua”, de 1995.
Mas a crueldade dos filmes com Tarantino o marcaria para sempre. O assaltante tortura o policial psicologicamente, dançando ao som de “Stuck in the Middle With You”, sucesso de 1972 do grupo Stealer’s Wheel, até que resolve cortar lentamente a orelha direita de sua vítima.
Eis uma das cenas mais cruéis do cinema, de uma tensão que deve muito à interpretação de Madsen, tanto quanto ao talento de Tarantino. É o tipo de crueldade que provoca catarse, e essa catarse define os rumos da trama.
No díptico “Kill Bill” a crueldade também é grande. No volume um, numa espécie de “cenas do próximo longa”, brincadeira de Tarantino com a narrativa seriada, o personagem de Madsen, Budd, aparece falando, sentado na escada de seu trailer: “Aquela mulher merece sua vingança. E… Nós merecemos morrer”.
É só isso que ele fala, mas é tão impactante, a pausa tão artificialmente calculada para que sua fala inteira case com um momento calmo da música de Zamfir, que funciona maravilhosamente bem dentro do maneirismo de Tarantino e da sinfonia musical que é a maior parte do filme.
É uma preparação para a crueldade que virá em “Kill Bill Vol. 2”. A noiva, personagem de Thurman, de tão ansiosa pela vingança, arromba a porta do trailer de Budd e leva um inesperado tiro de espingarda. Ela é atirada para longe, mas não morre. Budd a enterra viva para completar o serviço.
De currículo enorme, Madsen teve sua voz em animações e videogames, fez séries e filmes para a TV, mas ficará sempre marcado por esses dois papéis com Tarantino: o cortador de orelha e o homem que enterra uma mulher viva, mesmo que ela merecesse sua vingança.
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