Millennials, abandonem o sonho: vocês perderam

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Millennials, abandonem o sonho: vocês perderam


“Vai abrir concurso para a Ancine”, disse o amigo, durante um almoço dominical. Nunca foi meu sonho me tornar servidora pública, mas também nunca foi meu sonho viver de aluguel. O flerte com a estabilidade teve em mim efeito quase lisérgico, bateu forte tipo MD em bloco de carnaval. Eu, filha de funcionários públicos, estava mais perto do que nunca de viver como meus pais, “apesar de termos feito tudo o que fizemos”. Parece que Belchior, em 1976, já previa o sonho molhado do adulto millennial: viver as promessas das gerações anteriores de uma vida financeiramente estável.

Para quem não sabe, millennial é como se chamam os adultos infelizes que nasceram entre os anos 1980 e meados dos 1990, também conhecida como a geração que ficou mais pobre que seus pais. Segundo o IBGE, somos hoje a maior parcela da população brasileira —também a mais frustrada, a mais “burnoutada e a mais otária, porque acreditou que com esforço suficiente, seria recompensada com uma vida boa.

Nesse almoço de domingo, havia outros amigos na mesa (todos millennials), que também consideravam, ainda que discretamente, a possibilidade de prestar concurso público. A conversa despretensiosa virou uma espécie de luto pela ideia de que o trabalho seria nossa fonte primária de realização pessoal. Estava combinado, a gente ia fazer o concurso, mas seria segredo, um segredo enterrado com nossa síndrome de protagonismo.

Imagina só que vergonha: se resignar à vida que nossos pais levaram. Se conformar com um trabalhinho, um empreguinho, uma casinha, um carrinho, uma familiazinha. Uma vida sem grandes aventuras profissionais, mas também sem freelas arrombados, sem mercado de trabalho insalubre, sem startup com mesa de pingue-pongue, sem growth mindset, sem salários achatados, sem texto autopromocional no Linkedin. Viver como nossos pais seria, no fim, nossa resignação deliciosa, nossa maior ambição secreta.

Ai, ai… Saudade do que nunca vivemos. E assim fomos criando mecanismos de sobrevivência: sendo cringes nas redes sociais, postando foto de grupo de corrida, foto do pet (que é filho), da planta (que virou pet), e dos jobs, mil jobs, muitos jobs, que geralmente não cobrem o custo de vida. Temos um perfil de Linkedin invejável, mas uma saúde mental capenga. Nunca chegaremos lá, nunca seremos suficientes, estamos sempre atrasados.

Enquanto isso, tem coach atacando CLT, iminência de uma Terceira Guerra Mundial, inteligência artificial roubando empregos, é a uberização da uberização da uberização. Conclusão: Estamos fodidos —e no mau sentido.

A gente se cuida mais, come melhor, dorme oito horas por noite. Vamos viver mais que qualquer geração —e ganhar menos que todas elas. A expectativa de vida é maior, mas o tempo de errar é menor. Ter tudo resolvido aos 30 deixou de ser projeto de vida e passou a ser piada nas páginas de meme do Instagram. Nosso plano de aposentadoria é o apocalipse e o colapso mundial virou consolo coletivo.

A geração que cresceu achando que ia mudar o mundo, hoje se vê satisfeita em mudar o treino de cardio. Belchior já sabia: “Eles venceram e o sinal está fechado pra nós”.



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