Entre fusos horários e plataformas de streaming, Samuel de Saboia estreia em disco com “As Noites Estão Cada Dia Mais Claras”. Gravado em Tóquio, Salvador, Paris, São Paulo e Londres, o álbum articula deslocamentos geográficos e afetivos. Artista visual com passagens por instituições como o LACMA (Los Angeles), o Museo Thyssen (Madri) e colaborações com Comme des Garçons e Vogue Britânica, Samuel agora transforma suas travessias em música — num gesto que dialoga com os discos-diário de Joni Mitchell, os rituais sonoros de Carlinhos Brown e a intimidade de Labi Siffre.
O disco é composto por nove faixas que escapam de classificações rígidas, mas se aproximam de uma linhagem que atravessa o rock brasileiro do recôncavo baiano, a psicodelia setentista, a MPB de travessia e o pop de quarto. Não há hierarquia entre referências: Tincoãs e Nick Drake podem dividir a mesma faixa, assim como Novos Baianos e Franco Battiato podem ser evocados entre batidas. Samuel define seu som como “rock nordestino, antigo e novo” — mas a definição serve mais como provocação do que como rótulo.
A gravação do disco se deu em um processo fragmentado e transnacional, com madrugadas solitárias marcadas por fusos e ausências. A produção é assinada por Samuel ao lado de LLEZ (Zelo), Lucas Cavallin e Victor dos Anjos, nomes ligados a uma cena independente que circula entre o Mato Grosso, Pernambuco e São Paulo. A escuta que guia o álbum é sensível, mas objetiva: Samuel assina também direção musical, produção fonográfica e arranjos. Conduz o disco como quem monta um ensaio, onde cada som serve a uma pergunta — e não a uma estética.
Samuel, que durante anos se articulou em linguagens visuais que permitiam distanciamento, agora experimenta o gesto da voz como vulnerabilidade. “Deixo um pouco da subjetividade e do recuo que a arte visual me permite, e me coloco à prova: perto do toque, em frente à dor e ao tesão de ser”, diz o artista. Essa escolha reposiciona seu trabalho, aproximando-o de outras experiências contemporâneas em que a voz deixa de ser estética para se tornar testemunho.
Aos 27 anos, Saboia se move num território onde espiritualidade e erotismo não se opõem — se atravessam. As faixas lidam com desejo, culpa, travessia, prazer e perda como variações de uma mesma frequência. O disco não é ruptura, mas continuidade: uma extensão do gesto que sempre o guiou — transformar deslocamentos em linguagem e a própria vida em matéria de obra.
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