Atravessada, constantemente, por um itã tecido com fios de ouro do mundo bantu, que diz: “Oxum primeiro lava seus ouros para depois cuidar dos seus filhos”, escrevo. Continuo. Mulheridades negras, minhas irmãs de cor, quantas vezes vocês já se sustentaram no que esse itã nos diz para que pudessem continuar? Sob o prisma da ética do cuidado, temos abnegada pela sociedade toda nossa resistência e
agenciamento histórico; e isso se sustenta, a todo tempo, com os estereótipos a nós, depositados, desde o período do plantation: resignação e passividade diante das situações de violência e opressão, como nos lembra a autora e ativisita, Lélia González (1935-1994).
O encaixotamento, a patologização e a espera do primeiro erro. A indiferença com as dores que atravessam o nosso caminho. Mulheridades negras atravessadas com as questões de gênero e de sexualidade, com as nossas multi-identidades, estamos a mil léguas de distância do que chamam de sororidade. Não basta, é preciso existir uma intenção dialógica.
Dororidade é outra coisa. Enquanto a sororidade se sustenta no conceito estático construído pelo feminismo teórico branco e europeu, a “dororidade”, contém as sombras, o vazio, a ausência, a fala silenciada, a dor causada pelo racismo. E essa dor é preta, conforme nos lembra a intelectual negra Vilma Piedade.
Que possamos na medida do possível lembrar disso e que esse itã possa chegar como manutenção de vida em nossos corpos e corpas. A teórica estadunidense Audre Lorde (1934-1992) nos pede para rogar a cada uma de nós que aqui mergulhe naquele lugar profundo de conhecimento que há dentro de si e chegue até o terror e a aversão; a qualquer diferença que ali habitam, para que possamos ver que rosto tem. Cuidemos dos nossos ouros!
*Este artigo é uma colaboração da psicóloga Nívia Tôrres
Sobre a autora
Nívia Tôrres, atualmente, integra a equipe da Coordenadoria de Diversidade, Acessibilidade e Cidadania Cultural da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, gerenciando, desde 2024, as políticas de ações afirmativas atualmente implementadas. Psicóloga (CRP nº11/20024) e psicoterapeuta por meio de uma clínica racializada, afetiva e anticolonial. É também artista e pesquisadora. Membra da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – ABPN. Carrega conhecimento, experiência e atuação no campo político artístico, clínico, cultural, socieducativo, das ações afirmativas e das relações étnico-raciais.
Referências bibliográficas
PIEDADE, Vilma. Dororidade. Brasil: Editora Nós, 2018.
Foto de capa: Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) no Canva.
LEIA TAMBÉM: A (des)integridade negra.
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