Cuidados paliativos: mais de 600 mil brasileiros precisam de assistência para doenças graves

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Cuidados paliativos: mais de 600 mil brasileiros precisam de assistência para doenças graves


Atendimento multidisciplinar busca aliviar sintomas e preservar a qualidade de vida de pacientes e familiares


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Mais de 600 mil adultos e cerca de 34 mil crianças no Brasil precisam de cuidados paliativos, segundo estimativa da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). A assistência é indicada para pessoas com doenças graves e busca melhorar a qualidade de vida por meio do controle de sintomas e do acolhimento das necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais.

Apesar da ampliação do debate sobre o tema e da consolidação da Política Nacional de Cuidados Paliativos no Sistema Único de Saúde (SUS), a modalidade ainda é associada à ideia de que não há mais possibilidades de tratamento. Na prática, os cuidados podem ser iniciados desde o diagnóstico de uma doença grave e não significam a interrupção de outras terapias.

Segundo a médica clínica do Grupo São Lucas de Ribeirão Preto, Cláudia Serralheiro (CRM 154.809), um dos principais desafios é justamente superar a ideia de que os cuidados paliativos são destinados apenas aos momentos finais da vida.

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“O estigma de que os cuidados paliativos são indicados apenas quando ‘não há mais nada a fazer’ é um dos maiores equívocos na prática médica. Na realidade, representam uma abordagem ativa, abrangente e altamente especializada, cujo objetivo é melhorar a qualidade de vida da pessoa e de sua família”, afirma.

Abordagem multidisciplinar

Os cuidados paliativos não se concentram em uma doença ou tratamento específico. A abordagem considera o conceito de “dor total”, que envolve diferentes dimensões do sofrimento. Por isso, o acompanhamento pode reunir médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais.

A proposta é avaliar não apenas os sintomas apresentados pelo paciente, mas também os impactos da doença em sua rotina, relações, emoções e valores pessoais.

“A equipe interdisciplinar atua de forma integrada para compreender quem é aquela pessoa e o que ela valoriza. A grande mudança está na pergunta clínica. Em vez de focar apenas em qual doença o paciente tem, a equipe também pergunta quem é esta pessoa e como essa doença está impactando sua vida”, explica a médica.

O atendimento também envolve familiares e cuidadores. A equipe pode auxiliar na identificação e no enfrentamento da sobrecarga física e emocional, na mediação de conflitos e no processo de luto. Nesse contexto, a comunicação entre profissionais, paciente e família é considerada fundamental para alinhar expectativas e apoiar decisões sobre o tratamento.

Autonomia do paciente

As Diretivas Antecipadas de Vontade, também conhecidas como “testamento vital”, são outro instrumento relacionado à autonomia do paciente. Por meio delas, a pessoa pode registrar previamente suas preferências sobre tratamentos e limites terapêuticos para situações em que eventualmente não consiga manifestar sua vontade.

“As Diretivas Antecipadas de Vontade representam uma extensão da autonomia. Quando as vontades do paciente são discutidas e registradas antecipadamente, reduz-se a culpa e a insegurança da família em momentos críticos, garantindo um cuidado alinhado aos seus valores”, afirma Cláudia.

A espiritualidade também pode fazer parte do acompanhamento. Diferentemente da religião, o cuidado espiritual busca abordar questões relacionadas a significado, propósito e existência, respeitando as crenças e os valores de cada pessoa.

Além do controle de sintomas físicos, a comunicação também pode contribuir para reduzir o sofrimento. Conversas transparentes sobre prognóstico, medos e expectativas podem ajudar o paciente a compreender sua situação e participar das decisões relacionadas ao próprio cuidado.

O acompanhamento não termina necessariamente com o falecimento. As equipes de cuidados paliativos também podem oferecer suporte aos familiares durante o processo de luto.

“A assistência paliativa não se encerra com o falecimento, as equipes mantêm o suporte à família durante o processo de luto para auxiliar em uma travessia mais saudável. Democratizar os cuidados paliativos não é apenas ampliar serviços. É consolidar uma cultura de saúde que reconheça que cuidar, aliviar sofrimento e respeitar a autonomia são responsabilidades tão importantes quanto curar”, conclui a médica.

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