Cartas inéditas de Euclides da Cunha exploram viagens e negociação de votos na ABL

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Cartas inéditas de Euclides da Cunha exploram viagens e negociação de votos na ABL


Os comentários eram cifrados, porém diretos. “Retirei-me daí apressadamente (…) por ver a forma estranha com que tratas tua mulher e filhos”, diz a carta de dezembro de 1906.

O autor da missiva é o fazendeiro Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha, que se dirigia ao filho, o escritor Euclides da Cunha, que morreria assassinado anos depois pelo amante da mulher.

“Pensei que o trato que tens tido com os homens inteligentes desta terra, as viagens que tens feito e sobretudo os meus conselhos tivessem modificado a tua maneira de viver; mas, encontrei os mesmos destemperos, a mesma desordem de outrora”, continua a carta.

“Embora não tratasse diretamente da traição da nora Anna, o pai, nas entrelinhas, revelava sua preocupação com o filho, dizendo que já estava na hora de ele ficar mais em casa, pois perambulava muito e o assunto já era conhecido na vizinhança”, diz o pesquisador Leopoldo M. Bernucci, que, ao lado de Felipe Pereira Rissato, enfrentou a árdua tarefa de mergulhar na correspondência do autor de “Os Sertões”.

Iniciado em 2009, o trabalhou resultou na compilação de 1.608 cartas enviadas e recebidas por Euclides durante um período de 26 anos, de 1883 a 1909, das quais 918 eram inéditas em livro. O ambicioso projeto originou a publicação digital “Diálogo Epistolar de Euclides da Cunha”, disponibilizado pela Editora Unesp.

Se a literatura é o tema mais recorrente nas missivas, o material vem acompanhado também de observações paralelas sobre ciência, política, história e questões pessoais.

“Entre os assuntos mais frequentes, está a constante preocupação de Euclides com sua insegurança e a insatisfação no trabalho, além da frágil saúde, da perigosa instabilidade do regime republicano e das manobras políticas, no seu caso e de amigos e colegas, para se obter um lugar na Academia Brasileira de Letras“, aponta Bernucci, professor na Universidade da Califórnia, em Davis, nos Estados Unidos.

Intenso, impaciente e profundamente idealista, Euclides era um intelectual inquieto, acumulando as profissões de engenheiro, militar, jornalista e cientista, em que unia rigor técnico e sensibilidade humana. A análise da correspondência inédita permitiu a inclusão de novos dados para a biografia do escritor.

Por exemplo, o livro revela as complicações logísticas e o risco de vida que Euclides correu durante a sua viagem à região amazônica do Purus.

“Havia preocupantes tensões entre Euclides e o comandante da Comisión Peruana, Pedro Alejandro Buenaño, com a qual a comissão brasileira viajou, digladiando-se por aquele longínquo e vasto território. Nas cartas inéditas e nas já publicadas, ficaram registradas as fortes discussões entre os dois chefes, que estão permeadas de desacordos substanciais e uma claríssima falta de consenso sobre certas resoluções a serem tomadas.”

Em uma comunicação, Buenaño denuncia a escravidão de peruanos mantidos sob a tutela de brasileiros em seringais da região. “Em outra, Euclides relata uma revolta de soldados, deixados à beira do rio. Também houve mortes por doenças tropicais, como malária”, conta Bernucci, lembrando ainda as cartas de conteúdo sigiloso trocadas com o Barão do Rio Branco.

O então ministro das Relações Exteriores confiava no conhecimento de Euclides sobre cartografia e suas informações confidenciais o municiavam nas discussões que resultaram na anexação do atual estado do Acre, em 1903. “Rio Branco era atualizado sobre a reconfiguração daquela área”, explica Bernucci. “São mensagens muito curtas, às vezes em forma telegráfica.”

A carreira profissional, aliás, era aborrecida, com o escritor se queixando da sobrecarga e do tédio provocados pelo trabalho de engenheiro nômade que o obrigava a se submeter à enfadonha burocracia do funcionalismo público, exigindo centenas de cartas e ofícios.

A amplitude da correspondência permite ainda observar a diferença entre as falas do intelectual e as do cidadão comum. “Há o pensador ponderado, o estilista cuidadoso, e também o missivista com o peito muitas vezes aberto, sem o controle emotivo imposto pela sua atividade cerebral e às vezes até descambado para o humor”, diz o pesquisador.

Com o escritor Plínio Barreto, por exemplo, a ironia está num jogo de palavras entre Paris e Purus. Já as cartas trocadas com o poeta Vicente de Carvalho revelam como ambos eram supersticiosos —como reforçou a Coelho Neto, Euclides reclamava de uma visão de uma mulher vestida de branco que o perseguia constantemente.

Em uma missiva ao jornalista Domício da Gama, o escritor se queixa da reforma ortográfica de 1907 e, do advogado e crítico literário Alfredo Pujol, é alvo de uma brincadeira sobre seu novo estado “imortal”, depois de Euclides ter entrado para a ABL, em 1903. As disputas na academia, aliás, ocupam muitas cartas, com Euclides e amigos negociando votos inclusive com Machado de Assis.

Curiosa é a inexistência de textos sobre o entrevero com Dilermando de Assis, amante da mulher de Euclides, Anna, e que o matou em uma troca de tiros, em 1909.

“Não há praticamente nada”, diz Bernucci. “Acredito que era uma forma de ele escapar dessa realidade. Apenas o pai faz comentários velados, como se estivesse falando para um menino de 15 anos: ‘abre o olho, fica em casa, você tem andado demais’.”

A descoberta de mais cartas é possível em locais não totalmente explorados, como o Arquivo do Estado de São Paulo, que guarda as missivas de Euclides quando engenheiro da Secretaria de Obras Públicas. “Seriam meses pesquisando por causa da quantidade de material”, afirma o professor.

O material já catalogado resultaria em sete volumes impressos. “Por ora planejamos apenas um, sobre o período do reconhecimento do Alto Purus. Dependendo da recepção, a editora pode pensar em mais”, afirma Jézio Gutierre, publisher da Fundação Editora Unesp.

É uma visão pragmática como a que Euclides tinha de si mesmo. Em uma carta, assim se descreve: “Homem prático, massudo, enrijado nessa engenharia rude —não avalio as grandes abstrações dos sonhadores e as promessas enganadoras dos poetas”.



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