Uma das principais e mais sombrias óperas italianas, “Don Carlo”, de Giuseppe Verdi, volta a ser encenada no Theatro Municipal após 21 anos.
Trabalho de transição, em que Verdi abandona convenções do início de carreira e incertezas quanto a novas técnicas e vai à maturidade, “Don Carlo” estreia nesta sexta-feira (18) e encerra uma temporada marcada por mudanças na programação do teatro após a troca de gestão do complexo cultural, sob comando do Instituto Baccarelli desde junho.
“Don Carlo”, aliás, só foi confirmada, entre outros fatores, por causa do avanço na contratação do elenco, principalmente o estrangeiro, iniciada em agosto do ano passado. O orçamento foi repensado, mas não prejudicou significativamente a montagem de Caetano Vilela que, dentre as várias versões do próprio Verdi, optou pela mais monumental, a italiana, com quatro horas e 30 minutos e dois intervalos.
Foi também necessário o aval dos gestores para a produção de uma ópera de forte cunho político, centrada no embate entre Igreja e Estado. Baseada na peça do alemão Friedrich Schiller, “Don Carlo” estreou em 1867 e apresenta o que realmente atraía Verdi —dramas pessoais que só ganham sentido graças a uma teia de interesses e conflitos políticos.
Escrito inicialmente em francês e depois traduzido para o italiano, o enredo da ópera é um emaranhado de tramas e histórias paralelas. O ponto de partida é um acordo de paz entre a Espanha e a França, no século 16. Elisabetta di Valois, filha do rei francês, apaixona-se por Carlo, herdeiro espanhol. O pai deste, Filippo 2º, porém, resolve se casar com ela.
Perdido entre a paixão pela madrasta e a decisão de lutar contra o exército do pai, Carlo é influenciado pelo amigo de infância Rodrigo, que, na tentativa de levar a cabo seus ideais liberais, aproxima-se do rei e desperta a ira do Grande Inquisidor —a história é ambientada na Espanha tomada pela Santa Inquisição.
“O que interessa a Verdi é a disputa entre o rei e o Inquisidor”, afirma Vilela, descrevendo Filippo 2º como o monarca que descobre a solidão do poder e a impotência perante a Igreja. O diretor destaca uma cena que considera decisiva desse embate, quando o rei recebe o religioso em seus aposentos. Filippo pede um castigo para seu filho, no que é atendido pelo Inquisidor, que, por sua vez, pede em troca a cabeça de Rodrigo, o Marquês de Posa, cujas ideias liberais incomodam os católicos.
“Então o trono deve sempre se curvar perante o altar”, diz o rei, inconformado por receber a ordem de matar o único homem que considera amigo. A ironia no comentário é também indício do forte anticlericalismo de Verdi.
“Pela primeira vez, a Igreja cobra a monarquia. E o fato de o rei estar sem coroa e de pijama, enquanto o Inquisidor aparece todo paramentado, acompanhado de seus pajens, é a forma de Verdi trazer a política para dentro de casa. Filippo percebe que não tem domínio sobre a Igreja, que corrói o poder por dentro”, afirma Vilela.
Para o encenador, o dueto, que dura 40 minutos, é o momento essencialmente teatral da ópera, com todos os elementos apontados por Schiller, em sua peça, como política, paixões destruidoras, amores frustrados e ideias liberais. Também é uma resposta à crítica contra a falta de naturalidade da ópera —com o estilo do cantar recitado, o gênero ganha verdade e dramaticidade.
Vilela ainda evitou duas escolhas cênicas adotadas por diretores para alcançar o sensacionalismo. A primeira é o caráter homoerótico na relação entre Carlo e Rodrigo, presente especialmente nas versões francesas.
No primeiro grande dueto, “Dio, che nell’Alma Infondesti”, os dois homens selam um juramento de lealdade e união até a morte, com Verdi usando temas passionais que podem conduzir a amizade a um patamar acima dos laços amorosos tradicionais. “Vejo como algo absolutamente fraterno. São amigos de infância e eu não queria que isso distraísse o público”, diz o encenador.
Vilela abriu mão também da pirotecnia de cenas como aquele em que o rei executa hereges, queimados vivos diante da multidão. Enquanto diversas montagens estrangeiras mostram fogueiras chamuscando, a paulistana prefere que os condenados deixem o palco antes do suplício
Também foi descartada a cruz que é normalmente exibida no fundo da cena. “Preferi a coroa de espinhos, um objeto mais simbólico. Quando o rei entra em cena, desce uma coroa de espinhos de cinco metros, que emoldura o fundo do cenário. Cristo é usado pela Igreja para queimar os pecadores”, diz Vilela.
“No momento do sacrifício, a coroa muda de cor, para o vermelho. As pessoas se ajoelham diante do rei enquanto Cristo, que é a figura mais importante, está relegado ao fundo.”
Verdi sempre se preocupou com o aspecto teatral das obras. “Don Carlo” é fruto disso, de uma relação mais direta da orquestra com o canto, ou seja, da música com o texto. “A orquestra desponta quase como uma linguagem. Não no sentido de estilo, mas filosófico, dramatúrgico. Como em Wagner, a orquestra surge como uma outra voz, um outro personagem, o que concede um maior poder dramático”, afirma o tenor paraense Atalla Ayan, que fará Carlo em um dos elencos.
A importância vocal é reforçada pela soprano americana de origem mexicana Ailyn Pérez, que vive pela segunda vez Elisabetta de Valois. “Verdi requer muita maturidade na voz, porque cada personagem tem um momento em que se revela vulnerável”, diz ela, contrária à posição de submissa atribuída à sua personagem.
“É uma mulher forte, com coragem de falar francamente com o rei. Mas sabe da obrigação de abrir mão de seu desejo por Carlo em troca da paz entre os dois países. É um ato de inteligência.
Diferentemente das óperas anteriores de Verdi, em “Don Carlo” a orquestra dialoga constantemente com as linhas vocais, antecipando, comentando ou contradizendo o que está sendo cantado. Nesse caso, a música deixa de ser um mero suporte harmônico para se tornar uma extensão da mente e dos sentimentos dos personagens.
Para que isso fique claro ao público, a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência de Roberto Minczuk, ganha reforço do Coro Lírico Municipal, com presença maciça nos quatro atos, o que acentua a dramaticidade.
“Eu temia exagerar em determinadas cenas, mas Minczuk me incentivou dizendo que, para a plateia entender as paixões, a música crescente pede uma exacerbação em todos os níveis”, diz Vilela.
Outro detalhe que ganhou reforço é a presença de Rodrigo, o Marquês de Posa, com protagonismo que chega a superar o de Carlo. Centro moral e político da ópera, ele é movido por um grande ideal —a liberdade dos oprimidos e o fim da tirania.
“Isso em meio a personagens presos a paixões obsessivas ou disputas de poder”, afirma o barítono Paulo Szot, intérprete do personagem. “Estudiosos apontam Rodrigo como alter ego de Schiller para refletir suas ideias de liberdade. E Verdi potencializa isso, principalmente numa cena forte em que Rodrigo esclarece ao rei o que se passa fora da sua bolha, desmentindo que o povo o ama e que tudo está em paz.”
As relações de poder criadas por Verdi se inspiravam em William Shakespeare, autor que o compositor italiano considerava “o grande explorador do coração humano”. Em “Don Carlo”, o protagonista é visitado pelo fantasma do avô, Carlos 5º, como um enigmático frade que vaga pelo mosteiro de São Justo.
No quinto e último ato, quando Don Carlo é cercado por Filippo 2º e pelos guardas da Inquisição, Carlos 5º surge das trevas e conduz o neto para a segurança do santuário.
“Há uma inegável influência hamletiana nas duas aparições do fantasma do avô, além da dolorosa situação de Carlo ao ter de aceitar o casamento de sua noiva, Elisabetta di Valois, com o pai, assim como Hamlet vê sua mãe casar-se com o tio”, diz Vilela.













