O cantor britânico Ed Sheeran enfrenta o momento mais controverso da sua carreira.
A crise foi causada pela decisão de retirar da sua turnê nos EUA as apresentações de abertura do rapper americano Macklemore, que protagonizou uma manifestação pró-Palestina no palco dos seus shows.
Sheeran é um dos compositores mais bem sucedidos de todos os tempos. Ele já vendeu mais de 120 milhões de discos e passou mais de 1 mil semanas nas paradas de sucesso dos Estados Unidos.
Parte do seu apelo, além das suas canções insidiosamente cativantes, vem da sua personalidade simples. Ele parece ser um fã e se veste como eles ao voltar de trem de Glastonbury, na Inglaterra, mesmo sendo um dos principais destaques do festival.
Sheeran cultivou cuidadosamente uma imagem pública inofensiva e receptiva a todos.
Em 2014, ele doou todo o seu guarda-roupa para lojas de caridade. E, naquele mesmo ano, ele adotou um gato de um mês de idade, que foi salvo da eutanásia e recebeu o nome de Graham.
Atualmente, ele administra uma organização beneficente que oferece aulas de música para menores de 18 anos, na sua casa de campo em Suffolk, na Inglaterra.
Sheeran tenta ficar afastado da política. Normalmente, ele só se envolve para defender questões como proteção de direitos autorais e revenda de ingressos, ou para levantar questões sobre o impacto do Brexit sobre as turnês de músicos.
Mas sua tendência é de esquerda. Nas eleições gerais britânicas de 2017, ele afirmou ter apoiado o então líder trabalhista Jeremy Corbyn, embora não tenha participado da campanha.
“As pessoas achavam que, como eu não aparecia ao lado dele, não era apoiador de Corbyn”, contou Sheeran ao jornal britânico Sunday Times.
“Se você me conhecesse como pessoa e ouvisse minhas músicas, poderia ter um palpite bem fundamentado de que ele seria o tipo de pessoa que eu realmente apoiaria.”
Em relação a questões fora do mundo musical, Sheeran prefere permanecer recolhido.
Seu raciocínio, segundo ele próprio, é que a música deve unir as pessoas. Ele considera seus shows como “locais de segurança e refúgio”, construídos com base na humanidade comum.
Mas, nesta semana, este argumento desmoronou, criando uma crise para sua reputação e sua carreira.
Provavelmente, você já sabe da história.
Macklemore foi escolhido para abrir a turnê de Sheeran nos Estados Unidos. E, na primeira noite, ele fez um discurso dizendo “Palestina livre” e mostrando imagens da destruição na Faixa de Gaza.
Na noite seguinte, ele se referiu ao número de mortos como genocídio, uma acusação rejeitada por Israel. E enfrentou as críticas que se seguiram.
A organização StopAntisemitism acusou Macklemore de criar uma “armadilha” para o público. E os donos de estádios, aparentemente liderados pelo bilionário dono do time de futebol americano New England Patriots, Robert Kraft, pressionaram Sheeran e seus promotores a retirá-lo da turnê.
Depois de uma semana de discussões nos bastidores, eles conseguiram.
Na terça-feira (15/9), Sheeran publicou uma declaração, afirmando que os promotores tomaram a decisão, não ele.
Ele afirmou ter tentado construir pontes entre as partes, sem sucesso. E que ele “não foi conivente”, defendendo que sua decisão de permanecer fora do debate sobre o Oriente Médio em público não era prova de que ele “não se importava”.
“Estou indignado com o conflito entre Israel e a Palestina“, escreveu ele. “O sofrimento e a dor causada nos dois lados é uma tragédia humana.”
“Existem guerras demais em todo o mundo, causando dores imensuráveis, e nenhuma delas deveria ser tolerada.”
“Existe uma razão por que não uso minha plataforma profissional para a política”, prosseguiu ele. “Meu público inclui jovens e muitas crianças, de todas as origens.”
A declaração gerou fortes reações.
Se Sheeran está tão preocupado com as crianças, os críticos questionam por que ele não mencionou as milhares de crianças mortas na Faixa de Gaza.
Outros relembram que sua abstenção da política não foi absoluta.
Em 2018, ele vestiu uma camiseta com os dizeres “Justiça para Grenfell” no Estádio de Wembley, em Londres. Era uma referência ao incêndio da Grenfell Tower, na capital britânica, ocorrido no ano anterior.
Sheeran também participou do Festival pela Ucrânia em 2022 e gravou com a banda U2 uma canção de protesto sobre a guerra naquele país em 2026.
Foram também levantadas questões sobre sua relação com Kraft. Sheeran cantou no seu casamento em 2022 e, em uma entrevista após o evento, o chamou de “superdoce”.
O jornalista especializado em música Jeffrey Ingold declarou que a aparente aceitação da decisão de retirar Macklemore da turnê pareceu “covardia” da parte de Sheeran.
“Ele é um dos maiores músicos do mundo”, destacou Ingold à BBC Rádio 5 Live.
“Ele tem poder e influência. E, basicamente, ele lavou as mãos e disse ‘não é responsabilidade minha’.”
“Ele tinha alternativas, certo?”, prosseguiu o jornalista.
“Ele poderia ter dito aos promotores e aos donos dos espaços, incluindo Robert Kraft: ‘Quer saber? Não vamos fazer os shows ali. Se você não permitir que todos nós nos apresentemos, não vamos fazer.’ Ele poderia ter encontrado locais alternativos.”
A turnê de Sheeran entrou em crise horas depois da sua declaração.
Outros três artistas que participariam da turnê —Finneas, Aaron Rowe e Lukas Graham— anunciaram sua saída, expressando apoio a Macklemore.
A banda irlandesa Beoga também desistiu. Ela serve de apoio a Sheeran para músicas como “Galway Girl” e “Nancy Mulligan”. E Finneas estava escalado para abrir os shows de Sheeran em São Paulo, no início de dezembro.
Vários deles afirmaram que a decisão de excluir Macklemore, tomada por um grupo de bilionários donos de locais de shows, representava supressão da liberdade de expressão.
Outras personalidades do setor musical e de fora dele também se manifestaram.
A estrela do pop Pink, que pertence à comunidade judaica, compartilhou um meme contra Macklemore acompanhado da sua própria mensagem, explicando por que ela desaprova os comentários do rapper.
De uma hora para outra e contra sua vontade, Sheeran passou a ser o centro de uma tempestade política em torno de uma das questões mais polêmicas que existem.
Será que Ed Sheeran poderia ter lidado melhor com a controvérsia quando ela surgiu? Certamente que sim.
Na sua declaração, ele afirmou que gostaria de prosseguir com a turnê, para não decepcionar os fãs e a equipe que depende dos seus shows para ganhar a vida.
Se ele tivesse ameaçado desistir das apresentações, poderia ter enquadrado a questão como um protesto em favor da liberdade de expressão. Mas ele ainda teria sido inevitavelmente interpretado como endossando as declarações de Macklemore.
Por isso, Sheeran ficou preso em um beco sem saída. Ele estava condenado, qualquer que fosse a sua decisão.
Sua imagem de bom moço sofreu um enorme abalo. E o tom da sua declaração (“não é minha responsabilidade”) certamente não ajudou a reduzir a crise.
“Acho que isso irá mudar a forma como as pessoas olharão para ele a partir de agora”, afirma Ingold.
“Ele disse que não é conivente, mas, na verdade, ele é totalmente conivente com o que está acontecendo.”
O editor-executivo de música da revista Variety, Jem Aswad, afirma que o episódio mostra que “não se pode ser neutro nesta questão”.
Mas ele destaca que a maioria das pessoas não vai aos shows de Sheeran para serem relembradas sobre questões como a Faixa de Gaza. “Eles vão para deixar de pensar nisso e se divertir.”
Aswad duvida que esta controvérsia cause grandes danos à carreira do cantor. Ele não acredita que a maior parte das críticas “venha necessariamente dos fãs de Ed Sheeran”.
“Elas vêm de pessoas que questionam a forma como ele se comportou nesta situação e não acho que muitas dessas pessoas realmente sejam fãs de Ed Sheeran”, destaca ele.
Teremos a prova quando Sheeran se apresentar no seu próximo show na Filadélfia, neste sábado (19/9). Uma parcela do público poderá expressar suas ideias, mas muitos estarão ali apenas para apreciar a música.
A perda da sua banda de apoio também não é o desastre que pode parecer. Em turnês anteriores, Sheeran foi o único artista no palco, acompanhado por um pedal de loop, sem depender de outros músicos.
Mas, quando esta rodada de shows terminar em dezembro, no México, seus próximos passos precisarão ser cuidadosamente planejados.
Nesta era de descontentamento febril, permanecer fora dos confrontos talvez seja simplesmente impossível.














