Clique aqui e escute a matéria
“Quem mói nos asp’ro não fantaseia.” Talvez você não entenda a frase logo de primeira, mas não é tão difícil. Significa algo como “quem trabalha duro, de forma braçal, ou seja, no ‘áspero’, não tem tempo para fantasias e divagações”.
Trata-se de uma das várias afirmações célebres do jagunço Riobaldo, personagem principal de “Grande Sertão: Veredas”, obra-prima do escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967). Em 2026, o livro completa 70 anos.
A beleza da expressão e de tantas outras ao longo da obra, porém, só se mostra a quem mergulha neste livro, para muitos considerado o maior romance brasileiro de todos os tempos.
Convenhamos, “Grande Sertão: Veredas” não é uma leitura fácil, sobretudo nas primeiras páginas. Poliglota, inventivo e fascinado pelos costumes do Sertão (uma região que no livro compreende o sul da Bahia, o leste de Goiás e, principalmente, o norte de Minas Gerais), Guimarães Rosa criou uma linguagem própria. Fruto de suas experiências e vivências dentro e fora do Brasil, o texto é repleto de neologismos, arcaísmos, expressões populares. Também é rico em aliterações, que dão uma bela sonoridade à narrativa. Em muitos excertos, a inversão das orações pende muito mais para uma estrutura linguística germânica do que para o latim, do qual deriva o português. O autor era diplomata, morou na Alemanha nos anos que antecederam a 2ª Guerra Mundial e falava fluentemente o idioma de Goethe.
Além da linguagem, a narrativa também é única. A história é contada sem capítulos, na forma de um único monólogo (pode ser um diálogo, dependendo da interpretação que fazemos sobre o interlocutor de Riobaldo). São mais de 600 páginas de memórias reveladas através de um fluxo de consciência, ora linear, ora desconexo. Sentimentos de aflição, medo, desejo, coragem, alegrias e frustrações são expostos pelo jagunço aposentado a alguém que, desconhecido do leitor, ouve tudo com atenção e fascínio. Riobaldo é uma espécie de filósofo bronco, cheio de intensidade e dúvidas. Vive atormentado por um amor proibido por Diadorim/Reinaldo, personagem-chave presente nos trechos mais bonitos da história.
Às vezes, Guimarães Rosa fala pela boca de Riobaldo que, por sua vez, relata algo que ouviu quando jovem de uma terceira pessoa. São histórias dentro da história.
Enfim, é realmente desafiador ler este clássico da literatura. É preciso paciência. Mas tenha em mente a certeza da recompensa.
Alguns críticos comparam o livro a uma sala escura em que a pessoa entra e, no começo, sem enxergar nada, é obrigada a tatear pelos cantos. Aos poucos, porém, a visão se acostuma e tudo fica mais claro. É quando começa o deleite, a retribuição pelas incompreensões do início. Agora acostumado à linguagem do autor e familiarizado com os dramas (um deles, profundamente impactante, mas não darei spoiler), o leitor começa a assimilar tudo com maior facilidade e não precisa mais reler partes inteiras em busca de sentido e lógica. E a história começa a oferecer uma beleza tocante.
Deus e Diabo (um Fausto sertanejo nas palavras do próprio autor), bem e mal, reflexões sobre vida e morte, sonhos, justiça, traição, vingança e dor. E, acima de tudo, amor e ódio.
Os temas mais universais da humanidade estão presentes no livro, tudo com um roteiro intrigante, profundo e que diz muito sobre aquele Brasil do final do século 19. Não há personagens superficiais. Tudo é denso, de grande riqueza psicológica. Destaque, a meu ver, para o chefe de jagunços Zé Bebelo, que busca pacificar o sertão de cima de seu cavalo disparando tiros de revólver a esmo enquanto brada “viva a lei, viva a lei!”. O julgamento de Zé Bebelo mereceria um livro à parte.
Obcecado em ser fiel em todas as informações sobre aquele tempo e lugar, Guimarães Rosa criou uma obra que virou também uma referência em matéria de fauna e flora. São detalhes e mais detalhes da vegetação e dos animais. O pano de fundo é o Rio São Francisco, muitas vezes objeto de reflexões e analogias com a alma humana.
Não são poucas as frases e expressões do livro que se popularizaram e, hoje, permeiam mensagens que, vez por outra, surgem nos feeds das redes sociais. Eis a mais famosa: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Há outras que parecem muito mais poesia do que prosa, como as palavras de um Riobaldo já velho, casado com Otacília, elogiando a importância da própria mulher em sua vida, mas, como não poderia deixar de ser, lembrando do grande amor de outrora, Diadorim. “De mim, pessoa, vivo para a minha mulher, que tudo modo-melhor merece, e para a devoção. Bem-querer de minha mulher foi que me auxiliou, rezas dela, graças. Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também — mas Diadorim é a minha neblina…”
Tente você, leitor, compreender o que há por trás de tanta sabedoria sete décadas após a publicação da primeira edição de “Grande Sertão: Veredas”. Se ao menos desconfiar da acepção de neblina para designar alguém, você está pronto para encarar “Grande Sertão: Veredas”. Facilmente, entenderá que há obras que jamais ficarão velhas porque falam direto ao espírito.
Livro muito grande? Linguagem difícil? Personagens complexos? Nonada.
Saulo Moreira -Jornalista
saulomoreirajc@gmail.com




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2608739105.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2609777995.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2608739105.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)
