Estudo realizado pela Universidade Federal de Minas Gerais aponta dimensão de um problema relegado pelo poder público – especialmente as prefeituras
JC
Publicado em 16/01/2026 às 0:00
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Quem se encontra em situação de rua, condição extrema de vulnerabilidade do ponto de vista individual, deveria figurar como alta prioridade na atenção coletiva. Pois é no menosprezo coletivo, na prática da indiferença que denuncia apatia social e omissão política, que se dá o aumento da população de rua. Consequência, sim, de questões estruturais que se acumulam – mas não apenas isso: a degradação da condição humana também do fracasso ou inexistência de ações de valorização da cidadania para quem mais precisa de apoio.
Em poucos anos, o total de brasileiras e brasileiros em situação de rua disparou. De 158 mil em 2021 para 327 mil em 2024, e 365 mil em dezembro de 2025, segundo estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base em dados do CadÚnico do governo federal. Portanto, são números oficiais, e como se sabe, tem muita gente de fora do cadastro na mesma situação. A quantidade real, assim, provavelmente é maior. Quase dois terços dos que aparecem nos registros institucionais, cerca de 222 mil, não possuem onde morar, ou preferem as ruas, na região Sudeste. Em seguida, estão os nordestinos: quase 55 mil.
O crescimento em tão breve período é explicado, entre outros fatores, pela consolidação do CadÚnico como via de acesso aos benefícios sociais. Mas a equipe da UFMG não poderia deixar de juntar outras causas: falta de políticas públicas capazes de impedir a situação de rua, sobretudo voltadas para moradia, trabalho e educação; piora nas condições de vida, após a pandemia de Covid em 2020 e 2021; e até efeitos sociais das mudanças climáticas e das migrações na América Latina, a exemplo da massa de venezuelanos que cruzaram a fronteira vindo para o Brasil.
A redução da insegurança alimentar, muitas vezes considerada um indicador suficiente de redução do sofrimento social, não se reflete na eficácia de políticas para a situação de rua. Os excluídos não são poucos, facilmente percebidos nas capitais, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde há mais, porém também no Recife, e na Região Metropolitana, além de outras cidades pernambucanas. Os três níveis de governo são responsáveis, ao longo dos anos e dos mandatos que pouco mudam a realidade, pela permanência e agravamento do problema, que se mostra ainda como sinal da histórica desigualdade nacional.
“Quando o Brasil tomar conhecimento e o governo se conscientizar de que não tem que tratar a população em situação de rua criando guetos, mas como cidadão desempregado, criando capacitação e, principalmente, sensibilizando os empresários para que deem empregos para essas pessoas, aí sim isso começa a mudar”, cobrou Robson César Correia de Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, para a Agência Brasil.
Em especial, o poder municipal parece tratar os cidadãos nas ruas como invisíveis, tamanha é a naturalidade com que veem a situação como um direito de ocupação, e não, como falta de direitos cumpridos. O subcidadão nas ruas merece respeito, para obter plena cidadania.
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