Gleice Braz costura novos caminhos na moda negra cearense – Negrê

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Gleice Braz costura novos caminhos na moda negra cearense – Negrê


No Ceará, onde a moda muitas vezes ainda se equilibra entre a invenção e a sobrevivência, o Festival Monegrin surge como território de encontro, fricção e reimaginação. Mais do que um evento, o Monegrin se firma como uma plataforma de visibilidade e articulação política, reunindo criadores, pesquisadores e agentes culturais que pensam a moda para além do produto: como linguagem, identidade e disputa de espaço. É nesse chão coletivo que histórias como a de Gleice Braz ganham ainda mais potência. 

Nascida e criada em contexto periférico, Gleice construiu sua trajetória como quem costura com o que tem à mão, mas sem nunca perder de vista o desenho maior. Antes de ingressar no curso de Moda da Universidade Federal do Ceará (UFC), enfrentou um percurso marcado por trabalho precoce, deslocamentos longos e a necessidade constante de conciliar sobrevivência e sonho. “As 24 horas não são as mesmas para todos”, afirma, ao lembrar da rotina que dividia entre estudo, trabalho e responsabilidades domésticas. 

A Gleice Braz durante o Festival MONEGRIN 2026. Foto: Sandy Albuquerque.

Sem acesso facilitado, ela fez do caminho uma espécie de mapa expandido: cursos técnicos, formações em equipamentos públicos como o Porto Iracema das Artes e experiências no audiovisual e no teatro foram compondo sua base. “Por eu não ter oportunidades, eu tive que achar essas oportunidades”, resume. 

Entrar na universidade não foi ponto de chegada, mas de intensificação. Entre o Vicente Pinzón e o campus do Pici, Gleice atravessava a cidade diariamente – e, ainda assim, mantinha um desempenho acadêmico exemplar. Mais do que notas, o que se consolidava ali era uma compreensão: a moda, para ela, nunca poderia ser apenas estética ou mercado. Precisava ser ferramenta. 

Essa virada se materializa no seu projeto “Recria”, desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso. A proposta conecta indústria e comunidade a partir da reutilização de resíduos têxteis, criando um ciclo no qual conhecimento, produção e renda circulam de forma mais justa. Retalhos descartados tornam-se matéria-prima para novos produtos, enquanto moradores de comunidades são capacitados em modelagem, costura e design

A ideia é simples na superfície, mas radical na prática: transformar o que seria lixo em possibilidade e, ao mesmo tempo, tensionar a lógica elitizada da sustentabilidade. “Onde você vê uma pessoa como eu nesse espaço? Ele ainda é muito higienizado”, provoca. 

A Gleice Braz durante o Festival MONEGRIN 2026. Foto: Sandy Albuquerque.

Se o Recria aponta para o futuro, sua atuação no presente já revela um compromisso coletivo. Gleice fala com frequência sobre ensinar, compartilhar e abrir caminhos para outras jovens como ela – as “novas Gleices”, como gosta de dizer. “Eu não posso levar isso só como hobby. Se eu tive acesso, eu preciso devolver isso para a sociedade.”.

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No contexto do Festival, essa visão encontra eco. Para Gleice, eventos como o Monegrin são fundamentais para fortalecer redes e romper com a lógica de isolamento que, historicamente, atravessa corpos dissidentes. “Se a gente se unir, a gente se fortalece. Não adianta apoiar só nas redes e não ocupar esses espaços”, declara Gleice Braz.

A crítica também é direta: ainda há um longo caminho para que pessoas negras deixem de ser vistas apenas como força de trabalho ou cota simbólica dentro do sistema de moda. “Talento tem de sobra. O que falta é investimento e abertura de portas.”.

Ao final da conversa, quando convidada a deixar uma mensagem para jovens que sonham em entrar na moda, Gleice responde como quem conversa com sua própria versão do passado: “Vá atrás de oportunidades que façam sentido para você e tenha muito cuidado com quem quer se aproveitar do seu talento.”

Entre linhas, trajetos e insistências, sua história não é apenas sobre chegar – é sobre redesenhar o caminho enquanto caminha. E, talvez, garantir que quem venha depois encontre menos espinhos e mais passagem. 

Foto de capa: Sandy Albuquerque.

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